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Audioteca Sal e Luz. O Trato Com a Pessoa Cega. O trato em sociedade – O tratamento da
família – A aparência física do cego dificultando o tratamento – As castrações
em família – Efeitos psicológicos do trato errado na pessoa cega – Razões da
preferência pelo convívio entre seus iguais – Deterioração da personalidade do
cego diante dos tratamentos recebidos. A preocupação que nos domina na elaboração desse modesto ensaio
é, sem dúvida, esclarecer a sociedade e a família sobre a melhor maneira de tratar
com os cegos, sempre no melhor intuito de fazê-los felizes. Todos temos a nossa felicidade mais ou menos modelada pelo
ambiente em que vivemos, já comparando-nos com esse ambiente, já melhorando as
nossas condições em face dele. Ora, temos aqui insistido em que a maior desdita do não ver está
menos na própria falta de vista, do que no trato que as criaturas dão aos
cegos. Por isto, vamos aqui respingar os altos e os baixos desse trato, sem
muito nos preocuparmos com o efeito de nossas convicções sobre nós mesmos. Certo, o aspecto físico do cego, seu comportamento exterior
gerado, principalmente, pela impossibilidade de imitar o aspecto dos outros,
são a causa quase única dos tratos maus, dos erros de tratamento, das exclusões
e dos juízos preconcebidos com que a família e a sociedade, sem querer,
atormentam a vida dos cegos em todo o mundo. Animal feito especialmente para
ver, o homem faz a maior parte de seus julgamentos pelos olhos. Qualquer
indivíduo, deficiente ou não, que aos outros se apresente diferentemente do
comum dos mortais, já no vestir, já no aspecto físico em geral, é logo excluído
de muitas atividades sociais. Isso lhe traz o desconforto do convívio social - a maior desdita
da sua condição de cego. Desgraçadamente, isto não ocorre apenas na sociedade,
mas também na própria família da pessoa cega. Tão grande é aquela diversidade
física, que não raro a própria família esconde seu filho cego. Isso pode
ocorrer com qualquer deficiente físico, mas a cegueira é a deficiência
sensorial mais visível a toda hora. O mutilado pode ter a amputação suprida
pela prótese; o surdo move-se à vontade em qualquer meio sem que lhe reconheçam
o defeito. O cego, não: sua privação, principalmente se de criança, aparece
logo, de perto e de longe, até na sua diversificação do andar. Já insistimos
nisso em capítulo anterior, mas repisamos a idéia porque ela nos parece pouco
apreciada mesmo nos centros de educação de cegos, onde o assunto não é bem
cuidado. Este é o grande, o maior mal da cegueira: o cego não ser
o que sente que poderia ser, porque não lhe dão oportunidade, porque não
acreditam nele. Falta decididamente um oculista especializado em curar a
cegueira de consciência em relação aos cegos. O AUTOR José Espínola Veiga, nasceu em 21 de Dezembro de 1906, na
cidade do Rio de Janeiro. Contraiu varíola antes dos dois anos de idade e ficou
totalmente cego. Espínola Veiga inspirou, ajudou e promoveram muitos dos
serviços pró-cegos do Brasil, como: o direito dos cegos serem eleitores, a
aceitação de cegos em Concursos Públicos, reorganizou a Imprensa Braille do
Instituto Benjamin Constant, entre outras conquistas. Aposentou-se como professor em 1959, e dedicou-se ao comércio de
equipamentos de som, tendo sido representante de seis das melhores firmas do
ramo da Inglaterra e da Dinamarca. Faleceu com a idade de 92 anos. FONTE: Livro O Que é Ser Cego - José Espínola Veiga - Capítulo
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